13 Maio 2008

Questão de fidelidade

Postado por João Paulo Mauler, às 10:17.

Robson Santos é um estudante de 19 anos que, como todo jovem de classe média, baixa músicas na Internet e tem uma vasta coleção de arquivos em MP3. Raquel Scotton, 20 anos, também não abre mão de seu acervo digital. Mas a semelhança entre os dois acaba aí. Coloque um disco de vinil nas mãos dos dois jovens. Robson vai olhar com desdém. Raquel mal conseguirá esconder o brilho nos olhos.

A reação de Robson é totalmente compreensível. Afinal, ele faz parte de uma geração que cresceu sob o domínio do CD como plataforma de distribuição musical, e nos últimos tempos tem aprendido a não depender de um meio físico para consumir música. Para ele, os LPs representam a contramão desse momento. “Hoje em dia até o CD está dando lugar ao MP3. O vinil é muito grande, pouco prático, estraga fácil, além de não ter o som tão puro quanto o do CD”, argumenta Robson.

Raquel não concorda. Para ela, os discos de vinil têm valor afetivo. “É uma sensação especial ouvir a música do jeito que ela foi produzida na época, é como se fosse uma viagem no tempo”. A garota, que gosta de Frank Sinatra, bossa nova e tropicália, concorda que o som do CD é mais limpo. “Mas tira a originalidade da obra, não é a mesma coisa ouvir uma música dos anos 30 ou 40 em CD”, contra-argumenta.

Questão de fidelidade_ O analista de sistemas Mauro José Alvim é um aficcionado por LPs. Ele defende a maior qualidade do vinil em relação aos seus sucessores tecnológicos. “No CD as freqüências mais altas e baixas do som não são totalmente fiéis ao original. O disco de vinil, se tocado em um aparelho de qualidade, é o mais próximo que dá para chegar da execução ao vivo”, explica. MP3 então, nem se fala. “O arquivo de MP3 é tão pequeno porque o arquivo é comprimido, com perda de informação. Dizem que o que se perde é informação inaudível para o homem, mas não é verdade. As pessoas não percebem muitas vezes porque usam caixas de som ruins, como aquelas que vêm nos computadores”, complementa Mauro.

O DJ Erich Monteiro concorda que o som do vinil tem um charme especial, mas nas suas discotecagens usa somente CDs, e já planeja em um futuro próximo aderir exclusivamente ao MP3. “Hoje em dia é muito mais difícil e caro conseguir material em vinil para discotecar. Já em CD ou MP3 você tem acesso a quase tudo o que é produzido”, comenta o DJ. Ele lembra ainda que, com a evolução tecnológica, os efeitos de discotecagem que eram feitos só com os discos de vinil hoje são perfeitamente reproduzíveis nos equipamentos mais modernos.

O músico André Medeiros não concorda com a superioridade do som do LP, apesar de ser um consumidor do formato. “O que aconteceu foi que as primeiras remasterizações de discos antigos eram mal feitas, e o produto final não ficava tão bom. Mas hoje em dia a transformação já é feita com mais perfeição”. Ele é fã do vinil por uma razão mais simples. “O vinil é mais barato. Hoje eu só compro CD se tiver muita certeza do que quero. Com o LP não, eu gosto de garimpar, e sempre acho algum disco antigo bacana por um preço baixo”, explica.

De olho no passado_ Em um pequeno espaço onde não cabe nem um fusquinha estão alojados cerca de 3 mil LPs, nas contas de Samuel de Freitas. O comerciante mantém no bairro Mariano Procópio, em Juiz de Fora, a única loja da cidade que ainda trabalha exclusivamente com discos de vinil: a Go Back Discos. Ele garante que passam por lá todos os dias os mais diferentes tipos de consumidores. “Tem aqueles que estão procurando uma capa de disco para fazer decoração de festa, outros querem uma raridade do artista que gosta, e tem o colecionador. Esse é detalhista, o disco tem que estar do jeito que estava quando saiu da loja, e ele paga o preço que for por um disco raro”.

Na loja existem discos de diversos gêneros, níveis de raridade e, conseqüentemente, preços, que variam de R$ 1,00 a até R$ 300,00. “Tenho alguns discos aqui que não se acha em qualquer esquina. Um disco dos Mutantes original, por exemplo, não se acha por menos de R$ 100,00, porque é raro”. Ele concorda com André quando fala sobre as versões em CD de discos antigos. “Você ouve um Vicente Celestino remasterizado, e nota que não é a mesma coisa. É um absurdo isso, o som fica totalmente diferente, descaracteriza o trabalho original”.

Samuel fala com orgulho de seu acervo, que inclui uma versão rara do Álbum Branco dos Beatles, muitos discos de Cartola, Tim Maia e Nelson Gonçalves. Ele garante que tem acervo de fazer inveja em qualquer DJ, já tocou em algumas festas, mas não troca a loja pela discotecagem. “Isso aqui, mais do que um ganha-pão, é também um hobbie para mim”, orgulha-se o vendedor. “Aqui está tudo à venda, menos a minha coleção de discos da Furacão 2000. Desses eu não me desfaço de jeito nenhum”, completa.

Para todos os gostos_
Para muitos, o vinil é um formato condenado a desaparecer. A única fábrica que ainda produz as “bolachas” no Brasil fica no Rio de Janeiro, e a cada ano tem uma diminuição na produção. Por outro lado, alguns músicos ainda lançam versões especiais em vinil de seus trabalhos. O último disco da banda de rock Los Hermanos, por exemplo, teve uma edição de luxo limitada em vinil, assim como o álbum Cê, do cantor Caetano Veloso. Iniciativas como essas mostram que o formato ainda está vivo.

A verdade é que sempre vai existir um público fiel para os discos de vinil. O comerciante Samuel que o diga. Ele sustenta a si mesmo e à família já há três anos com os lucros da Go Back Discos, e não pretende abandonar o ramo tão cedo.

A questão da qualidade é polêmica, e passa muito mais por gosto pessoal do que por uma verdade técnica absoluta. Os que defendem o vinil dizem que o som é mais fiel, mais “quente”. Do lado do CD o argumento é o som puro, sem chiados, e a disponibilidade de todo o acervo musical moderno. Quem gosta de vinil está atrás dos discos que fizeram a história da música, mas não acha tão facilmente os lançamentos. De conclusivo nisso tudo, só mesmo o fato de que, não importa que novas tecnologias apareçam, as antigas sempre terão espaço, mesmo que seja somente para algumas pessoas, que as mantêm vivas.


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Um comentário

  • Julio Moraes disse:

    Quando falamos de musica, abre-se uma porta grande para varios tipos de debates. Quanto ao maior de todos que é em relação vinil, cd, mp3 não existe comparações, cada item tem seu charme seu estilo, seu publico. Eu que me considero da época furacão de CD’s que em menos de 10 anos já deixou de ser algo glamoroso, sempre colecionei LP’s, a questão é gostar da musica e preza-la em sua gravação mais perta do original possivel. Quando foi lançado o CD, junto a digitalização que ele proporcionou durante todos esses anos veio por exemplo artistas padrões, alguem ai se lembra de boy’s band, ouçam os cds dos mesmos e veja se existe algo que difere cada um?. Em mp3 nasceu uma revolução maior, juntamos a credibilidade de gravação do LP junto a diversidade do CD. Temos hoje musicas comerciais, mas musicos que também fariam parte facil de uma coletenea de MPB em LP, houve a democratização, mas não a aceitamos pelo fato da mesma não se valorizar, acho que não deveriam em determinação acabar com a produção do Vinil, acho que o CD é algo mais propenso a sumir com um certo tempo, é só ver seu declinio em poucos anos, já o MP3 é tem que ser utilizado com sabedoria e seu proprio bom gosto.

    Aos adoradores de musica eu pergunto. Quantas musicas de hoje em dia te faz pensar ou sentir algo profundo de si mesmo?

    É isto o que os Lp’s trazem emoção, sentimentos, exite você e a musica e mais nada entre. Hoje é você a produção, remasteurização, meses enormes de ajustes sonoros, fake voices, produção em massa dae letras que genericas e ai sim vem a musica.

    Não vamos industrializar algo que ainda se mantém puro, somos abençoados pela diversidade, pela lingua e pela encorajada maneira de mudar o proprio pais com a musica. Então que seja em um violão ou um MP3, a ordem é juntarmos e perceber que cada estilo de produção tem seu espaço, e nenhuma delas deverá simplesmente desaparecer.

    Otimo post, abraços.

    16 de Maio de 2008 às 11:07



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