A propaganda anti-pirataria e a indústria 
Postado por João Paulo Mauler, às 14:21.As ações contra a pirataria sempre ajudaram, mais do que diminuir a prática, a criar uma antipatia do público em relação à indústria, e no fim das contas estimula o consumo ilegal. Ninguém mais acredita que baixar músicas da internet estraga o computador como uma recente campanha veiculada na TV fazia crer. O mais engraçado é que cada vez mais as práticas anti-pirataria têm servido de punição sim, mas contra quem (ainda) consome os produtos originais.
Por exemplo, se você compra ou aluga DVDs com freqüência, já deve ter visto um vídeo veiculado antes dos filmes, desestimulando a pirataria. Já deve ter notado também que esse vídeo, bastante agressivo no discurso, não é opcional, você é obrigado a vê-lo toda vez que quiser assistir seu filme ou seriado favorito. Sim, você que gastou seu suado dinheirinho na compra daquele produto, é obrigado a ver uma mensagem que nem sequer é pra você.
No caso da música, durante muito tempo foi comum que os CDs viessem com uma trava que impedia a cópia das músicas para o PC ou tocadores de música portáteis. Foi emblemático no Brasil o caso dos dois CDs de Marisa Monte, lançados simultaneamente em 2006 e protegidos com esse tipo de trava, o que impedia o comprador de poder ouvir a cantora em seu iPod. Ou seja, mesmo quem comprou o CD legítimo foi obrigado a baixar as faixas ilegalmente na internet para poder usufruir dos discos na plenitude. Faixas ilegais que, a propósito, já pipocavam nos programas P2P um dia depois do lançamento dos álbuns. Mais uma vez quem pagou o pato foi o comprador do produto original. Agora os advogados da RIAA (associação que representa a indústria fonográfica americana) voltaram com essa história de que copiar músicas de um CD original para o computador do próprio dono do CD é o mesmo que roubar. Os caras sabem mesmo como criar antipatia.
Existem dois tipos de pirataria: aquela dos camelôs que vendem CDs e DVDs pirata, lucram com isso e fazem parte do esquema do crime organizado mundial, e aquela outra, que eu e você já fizemos, de baixar uma música para o PC para uso pessoal, ou no máximo para trocar com os amigos, sem nenhum tipo de movimentação financeira envolvida. Não quero entrar no mérito da legalidade ou não desse segundo método (até porque, por mais que discordemos, ele - ainda - é ilegal e ponto), mas fica claro que existem diferenças gritantes entre as duas práticas. O que a indústria faz é igualar, tratar como criminoso desde quem vende e lucra com CDs piratas até o cara que baixou o último disco da sua banda favorita. O tiro, a gente sabe, tá saindo pela culatra. Mais do que isso, quando iguala o usuário doméstico ao vendedor de produtos piratas, relativiza a coisa e dá a impressão que o crime da venda de CDs e DVDs pirateados é um crime menor, quando não é.
O que vai ser da indústria cultural já em 2008 eu não sei, nem qual vai ser a solução para a crise pela qual ela passa. Eu sei que o caminho dos caras está torto, e muito. Se ele querem ganhar terreno e garantir o pouco de credibilidade que ainda têm, terão certamente que se sacudir.
Salvo em: Música
Palavras-chave: marisa monte, pirataria
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