19 Setembro 2008

Fernando Morais em Juiz de Fora

Postado por João Paulo Mauler, às 11:37.

Ontem á noite tive a ótima surpresa de poder assistir a uma palestra do jornalista e escritor Fernando Morais. Surpresa porque, como tudo o que acontece de bom nessa cidade, o evento foi pouquí­ssimo divulgado. Ele veio a JF para divulgar o lançamento do seu último livro, O Mago, a fantástica biografia de um personagem mais polêmico impossí­vel: o escritor Paulo Coelho.

Fernando Morais veio a convite de outra figura um tanto singular: o engenheiro juizforano Toninho Buda, que faz parte da história de Paulo Coelho e tem passagem de destaque em O Mago. Dizem por aí­ que Paulo e Toninho não são lá grandes amigos hoje em dia. Afinal foi Toninho quem escreveu o primeiro livro que saiu com a assinatura de Coelho na capa, e ele nem foi convidado para o lançamento. Mesmo assim, Buda está aproveitando o momento de fama criado pela biografia para garantir uns caraminguás.

A palestra teve mediação do próprio Toninho Buda que, na primeira hora e meia do evento, desferiu várias perguntas (desnecessárias) ao escritor. O assunto não podia ser outro: Paulo Coelho, a sociedade alternativa e até a vida sexual do mago, já que o livro revela que ele teve 3 relações homossexuais na vida (Morais, muito espirituoso, até disse que um deles poderia ser Buda, mas desmentiu depois).

Mas a melhor parte da palestra mesmo foi quando Fernando Morais comentou a produção de O Mago e falou sobre o processo de escrever um livro. Ele disse que o volume de papel gerado pelas pesquisas é tão grande que ele pretende doar todo o material para uma instituição de pesquisa em sua cidade natal, Mariana, e deixar à  disposição de quem quiser ver. Também falou sobre os gastos imensos nessa empreitada, que envolveu inúmeras viagens aéreas e contratação de profissionais para ajudá-lo nas pesquisas. Todo o orçamento foi coberto pela editora Planeta e por ele mesmo. Morais disse que sempre usa os lucros do livro anterior para escrever o seguinte, e assim não depender de leis de incentivo ou outras amarras criativas.

Perguntado sobre sua recepção ao filme Olga, baseado em seu livro de mesmo nome, ele disse ter gostado muito, e até se emocionado com a produção de Jayme Monjardim, apesar do filme ter sido muito criticado na época do lançamento. Para ele, a obra que tentar agradar à  crítica em vez do público não vai ser visto nem por bactérias. Outra pergunta foi sobre a questão envolvendo a biografia de Roberto Carlos, de Paulo César de Araújo, cuja circulação foi proibida pelo biografado. Fernando Morais considera esse um fato perigoso e que abre um precedente péssimo. Ele disse que várias editoras estão submetendo biografias aos departamentos jurídicos e censurando passagens que podem gerar polêmica. O escritor se disse ex-fã de Roberto Carlos, e que na casa dele não entram mais discos do Rei.

Perguntado sobre seus próximos projetos, ele disse ainda não saber o que vai fazer a seguir, além de descansar bastante. Mas entre as possibilidade está uma obra sobre Getúlio Vargas, para ele o personagem mais marcante da história brasileira. Ele também disse se interessar bastante pela fase de nossa história entre a proclamação da república e a revolução de 1930.

Quem pôde conferir a palestra de quase 2 horas e meia de Fernando Morais teve uma aula do que é ser um escritor brilhante. Morais é uma das figuras mais inteligentes da cultura brasileira, e mais gente deveria ler e ouvir as suas idéias. Pena que na quarta-feira, 17 de setembro, nem metade dos 320 lugares do Teatro da Academia estavam tomados.


Eu e minha amiga Raquel Turetti “tietando” Fernando Moraes depois da palestra


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22 Junho 2008

Lista das listas

Postado por João Paulo Mauler, às 1:44.

Todo mundo adora uma lista! Polêmicas e subjetivas, elas sempre aparecem em publicações e sites sobre cultura pop. Por aqui não podia ser diferente. Vou estrear a sessão de listas aqui do blog, que pretendo atualizar pelo menos semanalmente, com uma pequena lista de produtos culturais que têm como tema… as listas! Essa coisa de fazer listas é mesmo uma mania, tanto que existem desde blogs (muito bom esse) até comunidades no orkut totalmente dedicadas a listas sobre os mais variados assuntos.

Essa lista vai ser bem curtinha, três itens apenas, mas são listas representativas. Um seriado totalmente dedicado a uma lista, um episódio de outra série que tem a lista como principal fio condutor, e um filme vindo de um livro cujo grande barato são justamente elas, as listas!

Earl Hickey é um trambiqueiro que descobre da pior forma o que é karma. Após ganhar na loteria, ele perde o bilhete premiado e é atropelado. No hospital, ele descobre que quem faz coisas boas recebe coisas boas em troca. Ele resolve então fazer uma lista das coisas ruins que fez na vida (e não são poucas), e começa a tentar consertar esses erros, para “limpar” seu karma. Essa é a sinopse de My Name Is Earl, seriado com Jason Lee que é uma das comédias mais assistidas da TV americana atualmente. A lista de Earl é escrita em um pequeno pedaço de papel amarelo, e tem centenas de itens. A cada episódio ele procura as pessoas a quem fez maldades e assim vai cortando os itens da lista. Quem ainda não assistiu, não pode perder essa ótima série.

No quinto episódio da terceira temporada de Friends, “Aquele com o Frank Jr.”, Chandler conta que ele e Janice fizeram uma lista com os nomes de cinco celebridades com as quais eles poderiam dormir sem que fosse traição. Chandler escolhe Kim Basinger, Cindy Crawford, Halle Berry, Yasmine Bleeth e Jassica Rabbit. Rachel, sem hesitar, escolhe suas cinco celebridades: Chris O’Donnell, John F. Kennedy Jr., Daniel Day-Lewis, Sting e Parker Stevenson. Ross, então, depois de pensar muito, escolhe suas celebridades, mas deixa de fora Isabella Rossellini, porque Chandler diz que ela é muito internacional, e ele nunca teria chance. A lista do paleontólogo fecha com Uma Thurman, Winona Ryder, Elizabeth Hurley, Michelle Pfeiffer e Dorothy Hammill. Ele leva a coisa tão a sério que imprime e plastifica sua lista. O que Ross não poderia esperar é que Isabella Rossellini em pessoa apareceria no Central Perk. E claro, ele vai falar com a moça sobre a lista. Porém, quando descobre que seu nome não está lá, Isabella responde “Engraçado, seu nome estava na minha lista de cinco patetas de cafeteria, mas troquei ontem por aquele cara ali”. Veja a cena.

Mas as listas mais famosas da cultura pop são mesmo as de Alta Fidelidade. No livro de Nick Hornby, e na adaptação cinematográfica dirigida por Stephen Frears (de “Ligações Perigosas” e “A Rainha”), o personagem Rob (vivido no filme por John Cusack) é um loser viciado em rock, dono de uma loja de discos de vinil que tem mania de fazer listas de top 5 sobre tudo: os melhores filmes, os melhores empregos (se não houvesse limitação de habilidade, dinheiro e época), os melhores episódios de Cheers e, é claro, as melhores músicas. Ele divide essas listas o tempo todo com os funcionários da loja, Barry (Jack Black, impagável no filme) e Dick (Todd Louiso). A própria história começa quando Rob leva um fora da namorada e, enquanto tenta reconquistá-la, relembra os cinco foras mais dolorosos que levou na vida.


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7 Janeiro 2008

O som e a fúria de Tim Maia

Postado por João Paulo Mauler, às 14:14.

Para se fazer uma boa biografia, além de um bom escritor, é preciso um personagem biografado interessante e com boas histórias. Pensando por esse lado, é até de se estranhar que um livro sobre Tim Maia tenha demorado tanto a ganhar a luz do dia. Mas a espera valeu. O biografado, uma das figuras mais interessantes e controversas da música brasileira, tem histórias que poderiam muito bem figurar uma (boa) obra de ficção. E ninguém melhor que Nelson Motta para trazê-las à tona. Motta é uma das maiores autoridades em música no Brasil. Pudera. Além de jornalista, escritor, produtor e compositor, o cara teve contato próximo com grandes nomes da música e, por isso mesmo, mais do que testemunha, é personagem da história que se propõe a contar. Então, é com muita propriedade que Nelson Motta conta a história de Tim Maia pois, além de uma extensa pesquisa sobre a vida do cantor, ele era um grande amigo de Tim e, mais do que isso, um dos poucos que tinha respeito incondicional do músico.

No livro acompanhamos a trajetória de Tim Maia, ou melhor, Sebastião Rodrigues Maia, desde a infância no bairro da Tijuca no Rio de Janeiro, passando pela adolescência quando, em seu primeiro emprego, entrega marmitas feitas pelo pai na vizinhança. O trabalho não deu muito certo, porque Tim, na época Tião, insistia em “aliviar o peso” das marmitas antes de entregá-las. A viagem aos Estados Unidos, de onde voltou deportado, a tentativa de criar um grupo vocal com Roberto Carlos, que não deu certo por causa do gênio forte de Tim, a prisão no Brasil, as primeiras gravações e o estouro do dueto com Elis Regina (produzido por Nelson Motta), está tudo lá, contado com detalhes.

Tim Maia era uma figura tão divertida quanto controversa. Sua fama de doidão, que vivia drogado e não aparecia nos shows, é confirmada através de engrassadíssimas histórias, como a vez em que se escondeu em uma sala na gravadora para fumar um baseado em paz, mas não notou que ali era a central do ar-condicionado, e empesteou o prédio todo com o cheiro da maconha. Ou nas vezes em que, destruído por uma noitada intensa, simplesmente não aparecia nos show do dia seguinte. Ou quando, insatisfeito com o som (e ele sempre estava) ou com o contratante, saía no meio do show para não voltar mais (normalmente gritando para a banda a palavra “estratégia”, senha para sair de fininho). Ou nos intensos casos amorosos, marcados por idas e vindas. Ou mesmo nas frases e ditados que ele dizia à imprensa, muitas delas com o único intuito de se divertir às custas dos outros.

Além de ser um cara muito carismático, Tim Maia era também um dos mais talentosos músicos que o Brasil já viu. Sucessos como “Vale Tudo”, “Descobridor dos Sete Mares”, “Primavera”, “Um Dia de Domingo” são apenas alguns exemplos da obra riquíssima, do dono de uma das mais potentes e inconfundíveis vozes do país, e do mais empolgante show (isso quando ele aparecia, claro). O único porém era seu comportamento autodestrutivo, que o levou à morte prematura em 1998, aos 55 anos, quando já não apresentava a mesma potência vocal dos tempo áureos. Uma pena, talvez, mas se fosse diferente, e isso Nelson Motta mostra muito bem, não seria o Tim Maia do Brasil que todos nós aprendemos a gostar.

São histórias como essas que fazem de “Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia” um livro delicioso, principalmente por expôr, com muito respeito mas sem aliviar a barra, um dos nomes mais intensos da nossa música. Como complemento ao livro, o site oficial da biografia tem extensa galeria de fotos, vídeos e música de Tim, além dos quatro primeiros capítulos do livro para download gratuito, uma espécie de aperitivo que diverte e dá gosto de quero mais.


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31 Outubro 2007

Matei um cara em São Paulo

Postado por João Paulo Mauler, às 11:10.

Não, esse post não é nenhuma confissão de homicídio. Como todos sabem (???) estive em São Paulo nos últimos dois dias fazendo pesquisa de campo para meu trabalho de conclusão de curso. Mas sobre isso falo depois. Hoje quero comentar outra coisa. Ou melhor, duas outras coisas…

Por pura falta do que fazer, fui para a rodoviária de SP com uma antecedência um tanto exagerada. Já tinha notado que a Superinteressante de novembro (adivinha a capa? Tropa de Elite, claro) tava bombando por lá, várias pessoas nas ruas traziam a revista debaixo do braço. Fui comprar a dita-cuja pra me divertir um pouco enquanto esperava o horário de voltar para a terrinha, e qual não foi minha surpresa ao ver que o exemplar estava simplesmente esgotado naquela banca. Isso só mostra que, apesar da discussão em torno do filme já estar cansando um pouco, o longa de José Padilha ainda rende muito pano pra manga e atrai a atenção da galera.

Sem ter a Super como opção, fui para a parte de pocket-books da banca/livraria, e achei lá um livrinho do Jorge Furtado chamado Meu Tio Matou Um Cara que, além do roteiro do filme homônimo tem a história que deu origem ao longa e outros contos do diretor. Se você não está ligando o nome à pessoa, Jorge Furtado é, na minha humilde opinião, o diretor mais foda do cinema brasileiro. São dele (roteiro e direção) o fantástico O homem que copiava, além do melhor filme de 2007 para mim, o inteligente Saneamento Básico, o filme.

O tal livrinho, que eu devorei em menos de duas horas, é uma coletânea de contos muito bem sacados, deliciosos de se ler, e com uma linguagem que quem já viu os filmes de Furtado sabe do que eu tô falando. Em um dos contos, uma mulher morre na véspera da virada do milênio, e de repente se vê representando a raça humana no juízo final. Em outro, a mesma mulher vai para o paraíso, só pra descobrir que o paraíso não é tão perfeito assim (e olha que lá ela tem o Murilo Benício como empregado).

Se o livro tem algum defeito é acabar rápido demais. O conto que dá nome ao livro e ao filme (que por sinal, eu ainda não assisti, mas agora quero muito) ocupa mais ou menos metade do livro (sem contar com a parte do roteiro do filme), e é impossível não ler de uma sentada. Os outros, mais curtinhos, são instigantes e divertidíssimos. No primeiro livro de ficção de Furtado, o gosto que fica é de quero (muito) mais!


Salvo em: Cinema, Livros

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